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Corte e cicatriz

Patricia Metola
Eu queria ser barquinho na lagoa.
Mas me mandaram ser navio.
Eu queria ser passarinho que voa.
Mas no meu caminho houve um desvio.

Conduziram a minha história
Só pra ganhar e não perder
Me deixaram flutuando em vitórias
evitando meu sofrer. 
No perigo, não me equilibro.
Nunca aprendi a viver.
Virei ludíbrio dos que
souberam ser.
  E dessa vida que não fiz,
queria ser também corte e cicatriz.
Ainda que fosse apenas no fim.

Casulo


Palavras de moinho
compõem seu voo.
Dasatino de vértebra quebrada.
Quis pular o abismo.
Supor o destino.
Tornou-se bandido de cria criada.
O acaso ofereceu melancolia.
Preferiu cortina de ferro.
Teimosia de engano.

Livro intenso
Páginas em branco.
Verbo em conjugação.
Perdeu o sentido.
Desejo e delírio
Dos entregues ao corpo cárcere.

Para Amar Incondicionalmente


Carrego 17 arco-ires, os quais foram pintados lentamente através de gestos sábios e delicados, ainda que, por mãos firmes e fortes. Mas neste céu azul, não fora apenas a delicadeza das tuas pinceladas, tão pouco a tinta aquarela que usaste para me vestir de poesia que coloriram a pequena tela. Foi no traço mal feito, na linha na qual perdera o capricho, onde as tintas se misturaram num borrar de sonhos infinitos, que tu moldara uma alma feminina com ternura e amor. Fizera a tua menina, flor morena.
E colocara o destino em minhas mãos. Não tive medo desse mar que é a vida, tu sempre foras o marinheiro e eu a bailarina. E quando o mar se zangava, e as ondas ganhavam uma proporção maior, tu guiava o barco e cantava uma velha cantiga de marujo, enquanto eu bailava nessa ciranda de a-mar. E o navio nunca ancora, é eterno marujo, esse navegar.
Hoje sentei na janela e revivi meus sonhos e a vida. E me vi envolta em teu abraço forte, ouvindo tuas sábias palavras, segurando a tua mão pra atravessar a rua, sentindo teu cheiro no quarto, o calor da tua voz me colocando pra dormir, senti o medo que sentia quando você não estava comigo. Quando me via sozinha. Incapaz.
Acontece que eu fui crescendo, e você nunca foras marinheiro - pintor, muito menos eu, bailarina.  Um dia, desenhaste asas em minha tela, ambos tivemos medo na hora em que ousei usa-las, mas tu me disseste - vai, e eu fui...alcei voo, deixando meu coração em tuas mãos.
Me contaram certa vez, que quando nasci, ganhei de presente um moço bonito e um bilhete que dizia: Para Amar Incondicionalmente.
Descobri então, que tu não era apenas marinheiro, pintor, desenhista, era a pureza do amor, era MEU PAI.
E a vida foi se firmando nessa beleza de amar e ser amada.

Memória




Pra que forçar tanto a memória
se ainda te tenho em minha história?

Já vi a hora chegar
não falo em fim
para não me magoar.

Melhor continuar a trajetória
vivendo e morrendo assim
só tendo o teu amor em mim.

Com esse seu olhar
(de bem amor),
qualquer leigo saberá 
o que amar.

E mesmo que esse tempo passe
Ninguém jamais pode mudar
O que você tem pra dar.

Não me preocupo mais,
eu já me preparei
parei para pensar.

Pode até o tempo chegar
Agora eu só quero
O nosso amor renovar.

Versos íntimos


Às vezes quero arrancar do peito

Gélido e petrificado

Um resquício de sentimento.

Por menor que seja,

Sinto-me obrigada

a expulsá-lo.

Transferi-lo para o papel

Corroer as folhas de tinta preta

Paralisar a pulsação.

Criar, Transmitir,

Transmutar

‘Intimizar...’

Não sou poeta.

Queria sê-lo.

Mas sei versar...

De verso em verso

Com coração aberto

E papel na mão.

Necropsia


Pensamentos
Misturados
Em pensamentos
Finjo entender
O que se passa
Aqui por dentro.

Tentar descobrir
Quem sou
E o que faço aqui...

São pensamentos indissolúveis
Que se fecham em minha mente
Pensamentos
Alegres
Mas também descontentes

Quero uma necropsia
Quero descobrir
Por que estou assim
Perdida dentro de mim

Querendo ir para um lugar
Que nem deve existir
Querendo esquecer
Memórias esquecidas

Querendo fingir
Que o amor não pode existir

Querendo me perder
Para me encontrar
Em algum lugar
Que seja você

Quero uma necropsia
Quero saber
Por que
Não paro de pensar
Em te querer

Por que não paro
De pensar em você

Uma autopsia
Urgentemente
Se não vou morrer de amor
Se não ,não vou me agüentar
Meu coração e minha mente
Correm mais rápido que a água do mar!

E meus olhos brilham
Mais que o brilho de um luar!

Basta te ver de longe
Para me perder
Em meus pensamentos
Esqueço do mundo
Só sinto aqui dentro
O coração pulsar mais forte
O mundo girar na sorte

Autopsia
Eu fiz uma autopsia
E o resultado
Já muito esperado:
Loucura de amor!

"Sempre existe algo de loucura no amor.
Mas sempre existe alguma razão na loucura."
Nietzsche