Veneno-amor

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A garota distraída,
bebeu um amor amargo.
Bem armado
num copo de solidão.

No céu da boca
um atoleiro
de estrelas caídas,
todas feridas,
em estado de emergência.

E o veneno-amor,
na pura inocência,
corrói a alma de
quem lhe beber.


Alicerces


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 Cortina fechada,
quarto à meia-luz.
Uma agulha
 tecendo o destino.

Vozes confabulando o futuro.
Meus dois pés
na rua do mundo.

Na estrada vagante,
o viajante vasculha
a noite lacrada.

Enquanto belas moças
bailam.
Uma chuva despenca
sobre a multidão.

Estranhos dias,
entranhas vazias,
vida sem chão.


Caligrafia na pele


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Sangro a cada palavra.
Dos cadernos da gaveta.
Que transcrevem em meu corpo,
adequando a silhueta.

Começou pelas costas,
lisa, perfeita, espaçosa.
Passou devagar pelas coxas,
barriga, pés, mãos.
Nos territórios do sentir.
Dos diversos e afins.

Lapidam essa matéria bruta.
São versos, palavras sem nexo.
Uma crônica que sobrepõe o corpo,
e dói nos mínimos sentidos.

São pedaços dos textos que não mostrei.
Escritos marginais,
Sem papel de rascunho.
Palavras sobre a pálpebra.
Silêncio nu na pele página.
Poesia de corpo-diário.

Casulo


Palavras de moinho
compõem seu voo.
Dasatino de vértebra quebrada.
Quis pular o abismo.
Supor o destino.
Tornou-se bandido de cria criada.
O acaso ofereceu melancolia.
Preferiu cortina de ferro.
Teimosia de engano.

Livro intenso
Páginas em branco.
Verbo em conjugação.
Perdeu o sentido.
Desejo e delírio
Dos entregues ao corpo cárcere.

A última visita


Padece timidamente a Rosa
Reluzindo no amanhecer,
Sobre o fraco brilho da aurora,
a dor amarga do sofrer.

E se move com o vento,
perdendo-se pelos cantos,
voa em desalento,
à procura de um [en]canto.

E vai pendendo,
de árvore em árvore,
dependendo apenas,
da sua passagem.

Despedaçando-se pelo caminho.
Até, por fim, só lhe restar
uma única pétala.

Pequeno resquício de primavera.
Já era, meu amor, já era.
A estação passou,
mudou de cor.

Mas a última pétala ainda voa.
Vaga plenamente sozinha,
pela vazia rua,
passa às vezes esquecida
até tocar a minha pele nua.

A última visita
passa a minha vista
e se vai.